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O Lobisomem de Araçatiba: a noite em que o pescador virou fera em alto mar

Sumário

Eu nasci ouvindo histórias do mar. Meu avô era pescador na Praia de Araçatiba, na Ilha Grande — desses que sabiam o vento só de olhar o horizonte. E foi ele quem contou para o meu pai e meu pai me contou a história que até hoje faz com que eu me arrepie toda vez que a lua cheia aparece sobre o mar.
Dizem que, numa dessas noites, o mar engoliu um homem e devolveu uma lenda: o Lobisomem de Araçatiba.

A pescaria da lua cheia

Era verão, e o mar estava manso. Dois pescadores, saíram pra pescar xaréu quando o sol se despediu atrás dos morros. A lua subiu redonda, brilhando tanto que fazia as ondas cintilarem como prata líquida.
Meu avô dizia que nessas noites o mar fica quieto demais, e o silêncio pesa. E foi nesse silêncio que tudo começou.

O mais novo, começou a suar. Disse que sentia um calor queimando por dentro, um troço estranho, “como se o sangue tivesse virado fogo”. O outro riu, achando que era cachaça. Mas o riso dele morreu na garganta quando o amigo começou a grunhir.

A transformação em alto mar

O corpo se dobrou como se os ossos tentassem fugir. A pele dele estalava, e o barulho misturava com o bater das ondas. Os olhos ficaram dourados, os dentes cresceram — e o grito que ele deu não era mais de homem.
Meu avô dizia que o mar ficou bravo de repente. As ondas subiram, o vento virou e o uivo ecoou por toda a enseada. O pescador mais velho pulou da canoa e nadou desesperado até uma pedra, jurando que sentiu a água esquentar, como se o inferno tivesse subido à superfície.

De onde estava, ele viu a canoa virar e o lobisomem mergulhar nas ondas. Um clarão de lua atravessou o mar e, por um instante, o bicho olhou pra ele — metade homem, metade fera.

O que o mar devolveu

Na manhã seguinte, o barco foi encontrado quebrado, boiando perto da Praia de Provetá. As redes estavam rasgadas, e o casco tinha marcas de garras. O corpo nunca apareceu.
O pescador que conseguiu voltar para a vila mudo, pálido. Só falou uma frase:

“O mar tem olhos. E eles estavam abertos.”

Depois disso, nunca mais saiu pra pescar em noite de lua cheia.
E quem morava por lá começou a jurar que, de tempos em tempos, ouvia uivos vindos do alto mar. Alguns diziam ver olhos brilhando sobre as ondas; outros só sentiam o vento mudar — e sabiam que era hora de entrar pra dentro de casa.

A maldição do mar

Os mais velhos contam que Manoel desrespeitou o “tempo do mar” — o período em que não se deve pescar, quando os peixes estão procriando. É tempo sagrado, e quem quebra isso provoca a ira das águas.
Dizem que o castigo veio como maldição: condenado a virar fera em toda lua cheia, vagando entre o mar e a carne, sem nunca encontrar paz.

Meu avô sempre dizia: “Quem desafia o mar, acaba sendo levado por ele. E o mar cobra, mesmo que demore.”

O uivo que nunca some

Hoje, Araçatiba é linda — água clara, montanha verde, turistas pra todo lado. Mas quem é nativo, como meu pai, sabe.
Sabe que quando a lua cheia aparece refletindo no mar e o vento muda de repente, é melhor recolher as redes, apagar o lampião e esperar o dia nascer. Porque, dizem, o Lobisomem de Araçatiba ainda ronda o alto mar, uivando por algo que perdeu.

E eu, que cresci ouvindo essa história na varanda, com o barulho das ondas lá embaixo, juro pra você: às vezes, nas madrugadas muito claras… eu ainda ouço um uivo vindo do horizonte.
E o pior de tudo é que o mar responde.

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